o dia seguinte
como lidar com o amanhã quando ele finalmente chega?
“Enchente devasta cidade de Roca Sales (RS) e deixa população atônita”, dizia a manchete de setembro de 2023. Vendo a região passar por mais uma tragédia dessas que levam consigo vidas, rotinas, sonhos; me lembrei daquela matéria que me marcou tanto na época: descrita em detalhes nas linhas seguintes, ela mostrava os registros de uma catástrofe sem precedentes e que havia arrasado tudo ao redor.
Nos últimos anos, o Brasil enfrentou incontáveis desastres, mas todos parecem nos arrancar um pedaço do peito quando invadem os noticiários dos jornais e nos mostram vidas que serão para sempre transformadas. Quando aconteceu essa em 2023, lembro que fiquei por mais de uma semana com aquelas imagens na cabeça: dos irmãos que passaram a noite em cima dos galhos de uma árvore depois de ver a vida engolida pela força feroz das águas, “assistindo ao rio subir mais um metro, em pânico, enquanto casas destruídas desciam rua abaixo”; do céu ofensivamente azul nas fotos, em contraste com as ruínas da cidade destroçada, do senhor caminhando em meio aos escombros da casa em que morou por 25 anos, se questionando: "Quando acontece um incêndio, o desabamento de uma casa, o município todo se une e aquela família se reergue. Mas e quando é a cidade inteira? O que a gente faz?"1
Eu só pensava no dia seguinte. Como essas pessoas recomeçam no amanhã, quando ele chega? Como foi abrir os olhos e entender que não foi um pesadelo, que aquela era uma nova vida imposta por circunstâncias inimagináveis? Como acordar no outro dia e ver tudo o que já não existe mais, reconhecer o que restou e dali reconstruir o que virá?
